Entenda o porquê a alta de casos de Covid-19 em países com vacinação avançada!
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| Foto: Getty Images | Chalffy |
Na América do Sul, países com o maior número de pessoas
vacinadas com as duas doses, como Chile e Uruguai, enfrentam um aumento de
infectados.
Especialistas explicam que a vacinação faz parte de um
conjunto de estratégias contra a Covid-19, que inclui o distanciamento social e
uso de máscaras.
A vacinação é o principal recurso para o enfrentamento da pandemia de
Covid-19, segundo os especialistas. No entanto, eles alertam que a medida não
deve ser a única estratégia para conter o avanço de casos e mortes pela
doença. Na América do Sul, os países que mais vacinaram pessoas com duas doses
são o Chile (47% da população) e o Uruguai (35% da população) que, ainda assim, enfrentam
números elevados de casos da doença.
Segundo especialistas consultados pela CNN, a
explicação pode estar na flexibilização precoce das medidas de restrição, no
impacto de variantes mais transmissíveis,
no abandono do uso de máscaras pela população, na efetividade das vacinas
utilizadas e na escolha dos grupos prioritários para
O caso do Chile
O Chile é o país com o maior percentual de pessoas vacinadas de forma completa na
América do Sul. Segundo levantamento do Our World in Data, mais de 47% da
população já recebeu as duas doses dos imunizantes e cerca de 61% tomou a
primeira dose. Entre as vacinas autorizadas para uso emergencial no país
estão Coronavac, Pfizer, AstraZeneca e Janssen.
Em 2021, o país enfrentou duas grandes altas nos índices de
contaminação nos meses de março e maio. Com 4.347 novos casos registrados no
país nesta quarta-feira (16), o total chega a 1.491.561. Nas últimas 24 horas,
foram reportadas 57 mortes, elevando o número de óbitos para 30.922. Apesar da
queda gradual representada nos números mais recentes, as taxas ainda permanecem
altas.
Até o momento, 3.275 pessoas estão internadas em Unidades de
Terapia Intensiva (UTIs) no país, das quais 2.832 estão em suporte de ventilação
mecânica. A ocupação de leitos está em 64%, com um total de 3.991 leitos
disponíveis.
Efetividade da
Coronavac no Chile
Em abril, o governo do Chile publicou resultados preliminares de
um estudo sobre a efetividade da Coronavac no país. Na época, a porcentagem de
pessoas vacinadas com as duas doses estava em 33,7%. Cerca de 90,1% receberam a
Coronavac e 9,9% foram imunizados com doses da Pfizer.
Segundo a vice-presidente da Sociedade Brasileira de
Imunizações (SBIm) Isabella Ballalai, a eficácia de uma vacina tem
como parâmetro os resultados dos estudos realizados com populações controladas.
Já a efetividade é a capacidade de
proteção de um imunizante com base em dados reais da vacinação da população de
forma ampla.
Em relação à Coronavac, os dados mostram que 14 dias após a
aplicação da segunda dose, o imunizante mostrou taxas
de efetividade de 67% na prevenção de casos sintomáticos, 85% na prevenção de hospitalizações,
89% na redução de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), e de 80%
para evitar a morte pela doença.
Isso significa, por exemplo que, de 100 pessoas que poderiam
ter contraído Covid-19, haveria apenas 33 casos, se todos estivessem vacinados.
Isso vale também para a prevenção de óbitos, de
100 pessoas que poderiam ter morrido devido à doença, 20 realmente morreriam,
considerando a imunização de todos.
Para a vice-presidente da SBIm, os resultados são positivos
e estão de acordo com as expectativas. “O que estamos vendo na prática é que a
efetividade das vacinas tem sido maior que a eficácia, devido à cobertura
vacinal, ou seja, diminuição da circulação do vírus”, explica Isabella.
Segundo o estudo, em um cenário de grande circulação do
vírus, a vacina protege grupos suscetíveis, como idosos e pessoas com comorbidades, contra a infecção
sintomática pelo SARS-CoV-2, assim como contra as formas mais graves da doença.
“Com apenas uma dose, as pessoas não ficam protegidas.
Com duas doses, ainda não ficam 100%. Até que a gente tenha cobertura vacinal,
ainda corremos o risco de mesmo vacinados adoecerem”, disse Isabella.
Descaso com as
medidas de prevenção e impactos das variantes
Para o pesquisador José Eduardo Levi, da Universidade de São
Paulo (USP), duas hipóteses podem explicar a alta no número de novos casos no
Chile: o relaxamento precoce das
medidas de restrição devido à sensação de segurança provocada pelo avanço da
vacinação e as condições climáticas do país.
“Houve um relaxamento das medidas de proteção,
principalmente o uso de máscaras e o
descuido com as aglomerações. O que tem sido visto por infectologistas do país
são casos principalmente em pessoas que não foram vacinadas”, aponta. Além
disso, segundo Levi, o inverno mais rigoroso no
país leva a mudanças de comportamento, como a maior permanência em ambientes
fechados, o que favorece a transmissão do vírus.
O virologista diz que os resultados da cobertura vacinal dependem
da efetividade da vacina utilizada e das variantes em circulação no país. As
variantes de maior circulação no Chile são a P.1 (ou Gamma, identificada em
Manaus) com cerca de 50% dos casos, seguida pela variante C.37 (ou Lambda,
identificada no Peru). De acordo com Levi, as duas linhagens apresentam capacidade de transmissão elevada,
o que pode dificultar os resultados da vacinação.
“A cobertura vacinal, para ser eficiente, precisa ser maior
do que a que o Chile atingiu até agora frente a variantes mais transmissíveis.
Isso significa que quanto mais transmissível for a variante predominante no
país, mais altas precisam ser as taxas de imunidade coletiva para conseguir
frear a variante”, explica.
O pesquisador utiliza como exemplo o experimento de imunização em massa com
a Coronavac, coordenado pelo Instituto Butantan, realizado no município de
Serrana, no interior de São Paulo. A vacina foi aplicada em 95% dos habitantes
maiores de 18 anos e mostrou reduções significativas de 95% em mortes, 86% de
internações e 80% em casos sintomáticos de Covid-19.
“Nesse caso, o resultado foi sensacional. Mas, para isso, é
preciso ter de 85 a 90% da população vacinada. Já em Israel, por exemplo, que
conta com uma vacina mais eficiente e com uma variante menos transmissível, com
55 a 60% da vacinação já houve uma queda na incidência e no número de óbitos”,
afirma.
Uruguai: o impacto da
ordem de prioridades da vacinação
O Uruguai enfrentou a primeira grande onda da Covid-19 em
março deste ano, com a elevação significativa no número de casos e óbitos.
Os picos da pandemia foram registrados em
meados de abril e no final de maio. Neste momento, o país apresenta uma queda
gradual nos índices.
Nesta terça-feira (15), foram registrados 2.813 novos casos
e 53 mortes pela Covid-19 no Uruguai, segundo dados do governo. O Sistema
Nacional de Emergências do país aponta que atualmente existem 31.337 casos
ativos e 437 pacientes permanecem em UTIs. Ao todo, o país já registrou 343.615
casos e 5.089 mortes.
De acordo com o Ministério da Saúde do Uruguai, 1.271.853
pessoas já foram vacinadas com as duas doses no país, o que representa 36% da
população. Com a primeira dose foram imunizadas 2.120.682 pessoas, o
equivalente a 60% da população. As vacinas disponíveis no país são a Coronavac,
a AstraZeneca e a da Pfizer.
José Eduardo Levi, da USP, diz que o avanço da pandemia no
Uruguai também pode ter sido impactado pela introdução da variante P.1 no início de 2021. Para
o virologista, a alta no número de casos e mortes a partir de março está
relacionada com a expansão da variante. “A P.1 é totalmente predominante no
país. A taxa de vacinação, que está na faixa dos 35%, é baixa para freá-la”,
explica.
O Uruguai priorizou para a vacinação, al??m dos profissionais
da saúde, grupos como profissionais da educação, policiais, bombeiros e
militares, diferentemente de outros países, incluindo o Brasil, que organizou
as prioridades por faixa etária e
comorbidades.
Para Levi, essa ordem pode ter levado ao aumento no número
de casos e mortes no país. Segundo o especialista, priorizar a vacinação
de pessoas idosas e com doenças relacionadas ao risco de agravamento pela Covid-19 pode
contribuir para preservar a vida de um número maior de pessoas.
No dia 25 de maio, o governo uruguaio divulgou os resultados
preliminares da efetividade das vacinas da Pfizer e Coronavac no país. Os dados
consideram os indivíduos vacinados com duas doses dos imunizantes após um
período de 14 dias.
As principais conclusões do estudo foram a redução nos casos
de Covid-19 de 57% para Coronavac e 75% para Pfizer. As quedas de internação em
Centros de Terapia Intensiva (CTI) de 95% pela Coronavac e de 99% pela Pfizer.
Além da redução da mortalidade em 97% para a Coronavac e 80% para a Pfizer.
Por: Lucas Rocha | Fonte: CNN


