E depois do transplante?
"O transplante renal não é uma cura, mas, antes, um tratamento"
Devido ao crescimento mundial e progressivo da Doença Renal Crônica (DRC), as suas formas de tratamento têm sido exaustivamente estudadas e aperfeiçoadas e o transplante renal é um tratamento de escolha para as pessoas com Doença Renal Crônica Terminal (DRCT). No entanto, para muitos autores, este tratamento é visto mesmo como uma necessidade para a maioria dessas pessoas, uma vez que melhora o funcionamento fisiológico do corpo humano por normalizar a função renal.
Ao contrário da hemodiálise e da diálise peritoneal, que exigem procedimentos constantes e que interferem com o quotidiano, implicando horas semanais exclusivas para o tratamento, o transplante renal pode proporcionar uma melhor qualidade de vida para a pessoa e para a família/pessoas de referência. Em virtude da rigidez do tratamento hemodialítico, a realização do transplante renal representa, muitas vezes, a esperança de uma vida com mais liberdade e qualidade. Todavia, está sujeito a ser encarado, de forma errada, como a cura definitiva da doença renal. Neste caso, a pessoa poderá negligenciar cuidados que são essenciais para os bons resultados do transplante, o que pode levar ao comprometimento do rim. As pessoas esquecem-se que continuam a ser portadoras de uma doença crónica, cujo transplante é uma das modalidades terapêuticas e, portanto, exige cuidado e atenção.
O que muda?
Após a realização do transplante, a pessoa vai ser sujeita a acontecimentos positivos e negativos, com expectativas, sentimentos ambíguos, incertezas e até mesmo frustrações, principalmente nos casos da perda do rim transplantado. Há estudos que indicam que os sintomas depressivos são frequentes.
Os precalços devem ser tidos em conta, nomeadamente:
Rejeição
O corpo humano defende-se das agressões estranhas (infecções, corpos estranhos), criando anticorpos. A título de exemplo, quando se tem uma gripe, o organismo fabrica anticorpos destinados a destruir o micróbio. Deste modo, também são fabricados anticorpos contra o rim transplantado, uma vez que o corpo humano encara-o como um corpo estranho e isto pode conduzir a uma rejeição. Se tal acontecer, o transplante fica inviabilizado
Para evitar a rejeição é necessário usar a medicação imunossupressora para sempre. É que estes fármacos ajudarão a “confundir” o sistema imunológico para que este não rejeite o órgão transplantado. Nos primeiros dias após o transplante as doses são maiores, depois vão sendo diminuídas pouco a pouco. Mesmo tomando esta medicação é possível ocorrer uma rejeição aguda. No entanto, tal não significa que a pessoa vai perder o rim, uma vez que existem tratamentos anti-rejeição. A vigilância e as consultas regulares também são imperiosas, sendo o primeiro ano o mais fulcral, de forma a detetar-se precocemente a rejeição e salvar-se o novo rim.
Infecções
Após um transplante, as pessoas ficam mais susceptíveis de contrair infecções, de estas serem mais graves e terem sintomas e sinais diferentes da população geral. A utilização dos fármacos imunossupressores também torna a pessoa transplantada mais susceptível ao aparecimento de infecções.
Sempre que a pessoa transplantada apresente um quadro de febre, deve de imediato procurar cuidados de saúde.Estes quadros infecciosos podem ser de origem bacteriana, viral ou fúngica (micoses).
De forma a prevenir as infecções utilizam-se antibióticos de amplo espectro (por via endovenosa ou oral), imediatamente antes da cirurgia e pelo tempo que for necessário após a cirurgia. As pessoas também devem:
Complicações cirúrgicas
Todas as pessoas após um transplante estão sujeitas a complicações que podem levar ao reinternamento. As principais são de ordem vascular (trombose da artéria renal ou da veia renal, acumulação de linfa próxima ao órgão transplantado) e urológica (fístula urinária, obstrução urinária, hematoma renal, ruptura renal, ruptura de anastomose arterial).
Após a cirurgia é imperioso estar atento a qualquer sinal ou sintoma que seja sinônimo de rejeição do novo órgão, nomeadamente:
Qualquer um destes sinais ou sintomas deve ser valorizado e comunicado imediatamente à equipa de saúde pois será ela que irá avaliar o que se está a passar com a saúde da pessoa transplantada. Ressalta-se que pode ocorrer hipertensão arterial e/ou dislipidémia após o transplante renal, sendo algo “normal”.
Desta forma, é fulcral que a pessoa:
Tumores
O risco de aparecer um tumor, principalmente da pele, aumenta após o transplante. Assim, sempre que exista o aparecimento de gânglios ou alterações na pele, deve-se entrar em contacto com a equipa de saúde.
Deve evitar-se:
Obesidade
Após o transplante renal o apetite aumenta pois a pessoa sente-se mais descontraída na sua dieta: deixou de ter de estar preocupada com equilíbrio do potássio, fósforo, proteínas etc. Estes factos conduzem ao aumento de peso e obesidade. È importante que a pessoa interiorize hábitos de vida saudáveis até porque estes deveriam ser transversais a toda a população: saudável ou não.
O transplante renal requer um cuidado contínuo, por parte da pessoa e uma vigilância da equipa de saúde eficaz, para que o tratamento tenha resultados satisfatórios e o novo rim tenha uma sobrevida o mais longa possível.
Desta forma, a pessoa que recebe o rim deverá seguir uma série de orientações, para além das supramencionadas:
Medicação
Tal como as pessoas que estão em programa regular de diálise, as pessoas transplantadas não deixam de ter de tomar vários fármacos, necessários à conservação do novo rim, nomeadamente:
A forma de prevenir a rejeição é nunca se esquecer de tomar os medicamentos imunossupressores. Deve ter-se em atenção que a medicação prescrita deve ser sempre tomada à mesma hora e seguir-se as doses prescritas. Ficam algumas dicas:
Identificação
Deve ser-se portador sempre do cartão fornecido pelo hospital indicando:
O boletim de vacinas deve estar sempre atualizado mas, antes de ser administrada qualquer vacina, deve consultar – se a equipa de saúde.
Saúde Oral e Higiene
A saúde oral e os cuidados de higiene são imprescindíveis para prevenir as infecções.
Cuidados ao olhos
As pessoas que foram sujeitas a um transplante apresentam um risco maior em desenvolver problemas oculares, devido à medicação.
Avaliar os sinais vitais
Alterações na urina e peso
Exercício físico e posicionamentos
A prática regular de exercício físico é importante para controlar o peso, prevenir uma série de doenças e proporcionar um bem-estar físico e emocional que quem só pratica, entende. No entanto, apesar de estar recomendado para as pessoas que foram alvo de um transplante, deve ser orientado por profissionais competentes e respeitar alguns ítens:
Atividade sexual e fertilidade
A sexualidade não pode ser tabu nem alvo de preconceitos em qualquer situação de saúde/doença. Neste sentido, a pessoa transplantada pode e deve preocupar-se com esta parte da sua vida, até porque, com a melhoria da qualidade de vida, a pessoa fica mais predisposta para esta temática e o desejo sexual renasce. Ficam alguns conselhos:
Alimentação
Após o transplante renal, várias restrições alimentares, nomeadamente de potássio e fósforo, características do período de diálise, deixam de ser necessárias, pelo menos para a maioria das pessoas.
No entanto, e como já foi verificado, verifica-se um aumento de apetite por parte das pessoas transplantadas. Isto ocorre não só devido aos efeitos de alguma medicação imunossupressora , como devido a uma nova sensação de liberdade e bem-estar. É, deste modo, indispensável controlar esse apetite desde o principio, uma vez que os excessos alimentares após o transplante renal contribuem para o aumento de peso. Espera-se então que a pessoa:
Acompanhamento psicológico
Todas as pessoas com uma doença crônica sentem receios e dúvidas face ao presente e futuro. A depressão é um risco, apesar dos sentimentos de medo, impotência e desconhecimento serem normais e fazerem parte do processo de aceitação da doença e do tratamento. Assim:
De forma conclusiva, o que se deve reter é que o transplante não é uma cura mas antes, um tratamento. Não é uma meta, faz parte do percurso. Um novo rim pode não ser algo definitivo mas, enquanto prevalecer, deve ser estimado, conservado. Prevenir é e sempre será o maior cuidado de todos. Desta forma, deve-se agir sempre com cautela e rigor para que o retrocesso para um programa de diálise esteja fora do horizonte.
Referências Bibliográficas
[1]. MORAIS, R.; SARDINHA, A.; COSTA, F.; CÂMARA, J.; VIEGAS, V. & SANTOS, N. (2016). Adesão à terapia imunossupressora em receptores de transplante renal. Cienc Cuid Saude 15(2), 141-147.
[2]. OLIVEIRA, J.; LOPES, V.; CAVALCANTE, L.; ROCHA, A.; SILVA, R. & BRASIL, C. (2016). História de Vida do Paciente Renal Crónico: da descoberta ao transplante. . Investigação Qualitativa em Saúde, 2,391-399.
[3]. PHIPPS, Wilma J.; SANDS, Judith K.; MAREK, Jane F. (2003). Enfermagem Médico-Cirúrgica. Conceito e Prática clínica (Vol.2). Loures: Lusociência.
[4]. RAVAGNANI, L.; DOMINGOS, N. & MIYAZAKI, M. (2007). Qualidade de vida e estratégias de enfrentamento em pacientes submetidos a transplante renal. Estudos de Psicologia, 12(2), 177-184.
[5]. SANTOS, B.; SCHWARTZ, E.; BEUTER, M.; ECHEVARRÍA, M.; FEIJÓ, A. & DUARTE, G. (2016). Transplante renal: análise comportamental a partir da Técnica dos Incidentes Críticos. Aquichan.16 (1), 83-93.
[6]. SILVESTRE, I; DUARTE, P.; REIS, R., & MORAIS S. (2013). Viver bem com o meu transplante renal. Coimbra
[7]. SILVA, V.; CAVALCANTE, L.; OLIVEIRA, J.; FERREIRA, R.; JÚNIOR, G. & BRASIL, C. História de Vida do Paciente Renal Crónico: a realidade pós-transplante. Investigação Qualitativa em Saúde, 2, 410-419.
Devido ao crescimento mundial e progressivo da Doença Renal Crônica (DRC), as suas formas de tratamento têm sido exaustivamente estudadas e aperfeiçoadas e o transplante renal é um tratamento de escolha para as pessoas com Doença Renal Crônica Terminal (DRCT). No entanto, para muitos autores, este tratamento é visto mesmo como uma necessidade para a maioria dessas pessoas, uma vez que melhora o funcionamento fisiológico do corpo humano por normalizar a função renal.
Ao contrário da hemodiálise e da diálise peritoneal, que exigem procedimentos constantes e que interferem com o quotidiano, implicando horas semanais exclusivas para o tratamento, o transplante renal pode proporcionar uma melhor qualidade de vida para a pessoa e para a família/pessoas de referência. Em virtude da rigidez do tratamento hemodialítico, a realização do transplante renal representa, muitas vezes, a esperança de uma vida com mais liberdade e qualidade. Todavia, está sujeito a ser encarado, de forma errada, como a cura definitiva da doença renal. Neste caso, a pessoa poderá negligenciar cuidados que são essenciais para os bons resultados do transplante, o que pode levar ao comprometimento do rim. As pessoas esquecem-se que continuam a ser portadoras de uma doença crónica, cujo transplante é uma das modalidades terapêuticas e, portanto, exige cuidado e atenção.
O que muda?
Após a realização do transplante, a pessoa vai ser sujeita a acontecimentos positivos e negativos, com expectativas, sentimentos ambíguos, incertezas e até mesmo frustrações, principalmente nos casos da perda do rim transplantado. Há estudos que indicam que os sintomas depressivos são frequentes.
Os precalços devem ser tidos em conta, nomeadamente:
Rejeição
O corpo humano defende-se das agressões estranhas (infecções, corpos estranhos), criando anticorpos. A título de exemplo, quando se tem uma gripe, o organismo fabrica anticorpos destinados a destruir o micróbio. Deste modo, também são fabricados anticorpos contra o rim transplantado, uma vez que o corpo humano encara-o como um corpo estranho e isto pode conduzir a uma rejeição. Se tal acontecer, o transplante fica inviabilizado
Para evitar a rejeição é necessário usar a medicação imunossupressora para sempre. É que estes fármacos ajudarão a “confundir” o sistema imunológico para que este não rejeite o órgão transplantado. Nos primeiros dias após o transplante as doses são maiores, depois vão sendo diminuídas pouco a pouco. Mesmo tomando esta medicação é possível ocorrer uma rejeição aguda. No entanto, tal não significa que a pessoa vai perder o rim, uma vez que existem tratamentos anti-rejeição. A vigilância e as consultas regulares também são imperiosas, sendo o primeiro ano o mais fulcral, de forma a detetar-se precocemente a rejeição e salvar-se o novo rim.
Infecções
Após um transplante, as pessoas ficam mais susceptíveis de contrair infecções, de estas serem mais graves e terem sintomas e sinais diferentes da população geral. A utilização dos fármacos imunossupressores também torna a pessoa transplantada mais susceptível ao aparecimento de infecções.
Sempre que a pessoa transplantada apresente um quadro de febre, deve de imediato procurar cuidados de saúde.Estes quadros infecciosos podem ser de origem bacteriana, viral ou fúngica (micoses).
De forma a prevenir as infecções utilizam-se antibióticos de amplo espectro (por via endovenosa ou oral), imediatamente antes da cirurgia e pelo tempo que for necessário após a cirurgia. As pessoas também devem:
- Usar máscaras de proteção durante o primeiro mês e sempre que for a uma instituição de saúde (hospital, centro de saúde, etc.).
- Evitar ao máximo o contacto próximo com familiares e amigos.
- Manterem-se afastadas de pessoas portadoras de doenças contagiosas (sarampo, varicela, tuberculose, etc.).
- Não se aproximar de animais durante o primeiro mês.
- Conservar a casa sempre limpa e arejada, especialmente as casas de banho;
- Lavar as mãos com água e sabão antes e depois de usar a casa de banho, comer/preparar alimentos ou chegar a casa.
- Seguir estritamente a dieta indicada pela equipa de saúde e não consumir alimentos preparados em lugares desconhecidos.
Complicações cirúrgicas
Todas as pessoas após um transplante estão sujeitas a complicações que podem levar ao reinternamento. As principais são de ordem vascular (trombose da artéria renal ou da veia renal, acumulação de linfa próxima ao órgão transplantado) e urológica (fístula urinária, obstrução urinária, hematoma renal, ruptura renal, ruptura de anastomose arterial).
Após a cirurgia é imperioso estar atento a qualquer sinal ou sintoma que seja sinônimo de rejeição do novo órgão, nomeadamente:
- Dor ou inchaço no local da cirurgia
- Temperatura acima de 37,5˚
- Diminuição do débito urinário
- Aumento de peso em pouco tempo
- Inchaço (edema) das pálpebras, mãos e/ou pés
- Dor ao urinar
- Urina com sangue e/ou com cheiro anormal
- Aumento da pressão sanguínea com a diastólica (mínima) maior que 100 mmHg
- Tosse ou falta de ar
- Perda da sensação de bem-estar
Qualquer um destes sinais ou sintomas deve ser valorizado e comunicado imediatamente à equipa de saúde pois será ela que irá avaliar o que se está a passar com a saúde da pessoa transplantada. Ressalta-se que pode ocorrer hipertensão arterial e/ou dislipidémia após o transplante renal, sendo algo “normal”.
Desta forma, é fulcral que a pessoa:
- Controle periodicamente a tensão arterial e os valores do colesterol total, LDL, HDL e triglicéridos , para prevenir as doenças cardíacas e vasculares;
- Se pese diariamente e anote o valor, bem como fazer um diário dos líquidos ingeridos e da quantidade de urina, de forma a dar conhecimento à equipa clínica da progressão do estado de saúde;
- Nunca se automedique.
Tumores
O risco de aparecer um tumor, principalmente da pele, aumenta após o transplante. Assim, sempre que exista o aparecimento de gânglios ou alterações na pele, deve-se entrar em contacto com a equipa de saúde.
Deve evitar-se:
- A exposição solar e, se ocorrer, aplicar protetores solares;
- Os hábitos tabágicos/ambientes com fumo.
Obesidade
Após o transplante renal o apetite aumenta pois a pessoa sente-se mais descontraída na sua dieta: deixou de ter de estar preocupada com equilíbrio do potássio, fósforo, proteínas etc. Estes factos conduzem ao aumento de peso e obesidade. È importante que a pessoa interiorize hábitos de vida saudáveis até porque estes deveriam ser transversais a toda a população: saudável ou não.
O transplante renal requer um cuidado contínuo, por parte da pessoa e uma vigilância da equipa de saúde eficaz, para que o tratamento tenha resultados satisfatórios e o novo rim tenha uma sobrevida o mais longa possível.
Desta forma, a pessoa que recebe o rim deverá seguir uma série de orientações, para além das supramencionadas:
Medicação
Tal como as pessoas que estão em programa regular de diálise, as pessoas transplantadas não deixam de ter de tomar vários fármacos, necessários à conservação do novo rim, nomeadamente:
- Imunossupressores;
- Medicação para controlar a tensão arterial;
- Medicamentos para o colesterol;
- Protectores gástricos;
- Antibióticos.
A forma de prevenir a rejeição é nunca se esquecer de tomar os medicamentos imunossupressores. Deve ter-se em atenção que a medicação prescrita deve ser sempre tomada à mesma hora e seguir-se as doses prescritas. Ficam algumas dicas:
- Se eventualmente a pessoa se esquece de tomar medicação à hora habitual e ainda faltarem cerca de 4 horas para a toma seguinte, deverá efetuá-la.
- Os vómitos e diarreia podem alterar a absorção dos medicamentos, principalmente se ocorrerem próximos da toma da medicação: se ocorrerem, deve-se consultar a equipa de saúde.
- O uso de alarmes/lembretes no telemóvel ou outro dispositivo é indicado, de forma a evitar saltar tomas da medicação.
- Não deixar até ao último dia de término de uma embalagem, para ir comprar a seguinte: pode estar esgotado ou temporariamente inacessível e a pessoa vais er obrigada a procurar noutros locais ou ficar sem tomar durante o tempo que a medicação não estiver disponível.
- Qualquer reacção a uma medicação deve ser comunicada à equipa de saúde e ao Infarmed®.
- O organismo de cada pessoa reage de forma própria e diferente aos medicamentos, pelo que os efeitos secundários podem ou não aparecer.
- Nunca deve existir auto-medicação.
- Os fármacos devem ser guardados devidamente identificados, dentro das caixas de origem e com o folheto, num local limpo e seco, protegidos da luz, do calor e da humidade.
- Se e pessoa viajar deve levar os medicamentos consigo.
Identificação
Deve ser-se portador sempre do cartão fornecido pelo hospital indicando:
- A condição de transplantado; a medicação que se está a tomar; os nomes e telefones da equipa de saúde por quem a pessoa está a ser seguida, de modo a se poder contactá-la a qualquer momento, numa emergência ou urgência.
O boletim de vacinas deve estar sempre atualizado mas, antes de ser administrada qualquer vacina, deve consultar – se a equipa de saúde.
Saúde Oral e Higiene
A saúde oral e os cuidados de higiene são imprescindíveis para prevenir as infecções.
- O ideal era que, antes de a pessoa ser transplantada, fosse consultada por um dentista, de modo a realizar-se um check up e a proceder-se aos tratamentos necessários inerentes.
- Se após o transplante, é necessário realizar um tratamento dentário, com risco de infecção, deve avisar-se a equipa de saúde, uma vez que, provavelmente, será administrado um antibiótico por determinado período. Já o recurso a anti-inflamatórios deve ser evitado.
- Deve-se escovar os dentes após as refeições principais ir e visitar o dentista regularmente para prevenir as infecções e as cáries dentárias.
- O uso de fio dentário é imprescindível.
- É aconselhado que a pessoa prefira duches rápidos a banhos de imersão/banheira.
- Uma higiene genital após as idas à casa de banho é muito importante.
- Usar roupas de algodão e descartar cosméticos com muitos ingredientes evita reações alérgicas.
Cuidados ao olhos
As pessoas que foram sujeitas a um transplante apresentam um risco maior em desenvolver problemas oculares, devido à medicação.
- Os problemas mais comuns são as cataratas e o glaucoma.
- Sintomas como dor nos olhos, alteração na visão, sensibilidade exagerada à luz, manchas no campo de visão e olhos secos devem ser comunicados de imediato à equipa de saúde.
Avaliar os sinais vitais
- Deverá avaliar-se a temperatura conforme a indicação da equipa de saúde. Este é um sinal que pode revelar infecção ou possível rejeição. Se a febre persistir mais do que um dia deve contactar-se a equipa de saúde;
- Deverá aprender-se a avaliar a tensão arterial e o pulso: este é um ensino que a equipa de saúde não pode descurar. E deve sempre registar-se. Qualquer alteração significativa tem de ser verificada pela equipa de saúde.
Alterações na urina e peso
- A quantidade de urina produzida após o transplante é variável, dependendo da quantidade de líquidos ingeridos. Se a cor da mesma se modificar ou diminuir drasticamente e/ou a quantidade de urina diária diminua bastante, deve contactar-se a equipa de saúde.
- Um aumento de peso (superior a meio quilo por semana) ou aparecimento de edemas (inchaço) deve ser motivo de alerta também.
Exercício físico e posicionamentos
A prática regular de exercício físico é importante para controlar o peso, prevenir uma série de doenças e proporcionar um bem-estar físico e emocional que quem só pratica, entende. No entanto, apesar de estar recomendado para as pessoas que foram alvo de um transplante, deve ser orientado por profissionais competentes e respeitar alguns ítens:
- A cicatrização total da ferida cirúrgica ocorre entre a 6ª e a 8ª semana pós-cirurgia. Durante este período não convém levantar objetos muito pesados; empurrar ou puxar objetos grandes ou de muito peso nem realizar atividades que produzam ou aumentem a dor no local da cirurgia.
- Depois deste período, os exercícios físicos podem aumentar de intensidade.
- Desportos de contacto, que possam provocar choque na região abdominal (como o futebol, andebol, jiu-jitsu, karaté, basquetebol, etc) devem ser evitados.
- Exercícios físicos durante episódios de rejeição são contra-indicados.
- Caminhadas, andar de bicicleta e nadar em piscinas limpas são excelentes exercícios, após a cicatrização.
- A pessoa não se deve deitar para o lado do rim transplantado.
- Deitar-se ou levantar-se bruscamente é contra-indicado.
- Deve parar-se qualquer atividade física se surgir cansaço ou falta de ar.
Atividade sexual e fertilidade
A sexualidade não pode ser tabu nem alvo de preconceitos em qualquer situação de saúde/doença. Neste sentido, a pessoa transplantada pode e deve preocupar-se com esta parte da sua vida, até porque, com a melhoria da qualidade de vida, a pessoa fica mais predisposta para esta temática e o desejo sexual renasce. Ficam alguns conselhos:
- Após 6 a 8 semanas do transplante, é permitido o retorno à atividade sexual.
- O aconselhamento sobre o método anticoncepcional a usar é imprescindível.
- A pílula pode elevar a tensão arterial portanto o seu uso, deve ser ponderado e avaliado individualmente.
- As mulheres transplantadas não devem usar aparelhos intra-uterinos (DIU), uma vez que ficam mais sujeitas a contrair infeções
- Como após o transplante há um risco acrescido de se contrair infecções, as relações sexuais exigem um cuidado redobrado, devendo usar-se sempre o preservativo.
- Urinar sempre antes e após o acto sexual é importante para evitar infecções.
- Após o transplante há, normalmente, a recuperação da fertilidade. No entanto, uma gravidez não é aconselhada no primeiro ano de transplante.
Alimentação
Após o transplante renal, várias restrições alimentares, nomeadamente de potássio e fósforo, características do período de diálise, deixam de ser necessárias, pelo menos para a maioria das pessoas.
No entanto, e como já foi verificado, verifica-se um aumento de apetite por parte das pessoas transplantadas. Isto ocorre não só devido aos efeitos de alguma medicação imunossupressora , como devido a uma nova sensação de liberdade e bem-estar. É, deste modo, indispensável controlar esse apetite desde o principio, uma vez que os excessos alimentares após o transplante renal contribuem para o aumento de peso. Espera-se então que a pessoa:
- Siga uma dieta adequada e individualizada.
- Organize as suas refeições de forma equilibrada, dando preferência à alimentação vegetariana e rica em fibras.
- Controle a ingestão de açúcar, pois o uso de imunossupressores tem a tendência de elevar a glicose na corrente sanguínea.
- Não restrinja líquidos (de preferência água) se não houver contra-indicação. A ingesta hídrica deve rondar s 2 a 3litros diários.
- Acrescente pouco sal aos alimentos e opte por outro tipo de condimentos, como os orégãos, tomilho, pimenta, limão e vinagre.
- Evite comida processada, uma vez que tem muito sal.
- Seleccione gorduras saudáveis, já que também existe uma tendência para o aumento do colesterol e dos triglicerideos no sangue.
- Diminua o consumo das carnes vermelhas e escolha carnes brancas e peixe.
- Ingira verduras e hortaliças, pois contêm vitaminas, minerais e um alto teor em fibras.
- Lave bem os alimentos antes de cozinhá-los, podendo usar o vinagre misturado com água, deixando repousar por 10 minutos as verduras e alguma fruta.
- Cozinhe bem os legumes durante os 3 primeiros meses pós-transplante.
- Não coma fruta que não possa ser descascada (uvas, cerejas, frutos silvestres, morangos) nos primeiros 3 meses pós-cirurgia.
- A toranja interfere com alguma medicação.
- Evite este tipo de alimentos fora de casa, pois desconhece como foram lavados e podem transmitir alguma contaminação.
- Não coma alimentos crus (carne, peixe, sushi, charcutaria, marisco, ovos).
- Se lhe apetecer molhos, só deve consumir os industrializados/embalados.
- Opte por cereais (integrais de preferência) como a aveia, o arroz e o trigo.
- Diminua o consumo de proteínas, uma vez que alguns medicamentos levam a uma maior acumulação de resíduos na corrente sanguínea.
- Cozinhe a comida pouco antes de a consumir e evitar de todo reaquecer os alimentos.
- Acondicione os alimentos em recipientes próprios e guarde as suas refeições no frigorífico apenas por um período de 24 horas
- Após abrir uma bebida/enlatado, estes apenas se conservam bem 4 horas após terem sido abertos ou 24h no frigorífico.
- O frigorífico deve ser limpo e desinfectado pelo menos uma vez por mês.
- Ao frequentar restaurantes não se esqueça de verificar a proveniência dos alimentos e certificar-se que são frescos e de boa qualidade.
Acompanhamento psicológico
Todas as pessoas com uma doença crônica sentem receios e dúvidas face ao presente e futuro. A depressão é um risco, apesar dos sentimentos de medo, impotência e desconhecimento serem normais e fazerem parte do processo de aceitação da doença e do tratamento. Assim:
- Conhecer a doença, aceitá-la e aprender a lidar com ela facilitará o tratamento e a vida futura.
- Os exercícios de relaxamento podem ajudar a diminuir o stresse, a ansiedade e os medos.
- A prática regular de exercício físico mantém a mente ocupada e melhora o condicionamento e o aspecto físico e, consequentemente, a auto-estima.
- Ter uma atitude positiva é um trunfo muito importante e determinante para a boa evolução do tratamento.
- Conversar com familiares, amigos e trocar experiências com outras pessoas sob a mesma condição pode ser muito benéfico.
- Recorrer a um profissional especializado deve ser encarado como algo necessário e não como um capricho.
De forma conclusiva, o que se deve reter é que o transplante não é uma cura mas antes, um tratamento. Não é uma meta, faz parte do percurso. Um novo rim pode não ser algo definitivo mas, enquanto prevalecer, deve ser estimado, conservado. Prevenir é e sempre será o maior cuidado de todos. Desta forma, deve-se agir sempre com cautela e rigor para que o retrocesso para um programa de diálise esteja fora do horizonte.
Referências Bibliográficas
[1]. MORAIS, R.; SARDINHA, A.; COSTA, F.; CÂMARA, J.; VIEGAS, V. & SANTOS, N. (2016). Adesão à terapia imunossupressora em receptores de transplante renal. Cienc Cuid Saude 15(2), 141-147.
[2]. OLIVEIRA, J.; LOPES, V.; CAVALCANTE, L.; ROCHA, A.; SILVA, R. & BRASIL, C. (2016). História de Vida do Paciente Renal Crónico: da descoberta ao transplante. . Investigação Qualitativa em Saúde, 2,391-399.
[3]. PHIPPS, Wilma J.; SANDS, Judith K.; MAREK, Jane F. (2003). Enfermagem Médico-Cirúrgica. Conceito e Prática clínica (Vol.2). Loures: Lusociência.
[4]. RAVAGNANI, L.; DOMINGOS, N. & MIYAZAKI, M. (2007). Qualidade de vida e estratégias de enfrentamento em pacientes submetidos a transplante renal. Estudos de Psicologia, 12(2), 177-184.
[5]. SANTOS, B.; SCHWARTZ, E.; BEUTER, M.; ECHEVARRÍA, M.; FEIJÓ, A. & DUARTE, G. (2016). Transplante renal: análise comportamental a partir da Técnica dos Incidentes Críticos. Aquichan.16 (1), 83-93.
[6]. SILVESTRE, I; DUARTE, P.; REIS, R., & MORAIS S. (2013). Viver bem com o meu transplante renal. Coimbra
[7]. SILVA, V.; CAVALCANTE, L.; OLIVEIRA, J.; FERREIRA, R.; JÚNIOR, G. & BRASIL, C. História de Vida do Paciente Renal Crónico: a realidade pós-transplante. Investigação Qualitativa em Saúde, 2, 410-419.
Fonte: Portal da Diálise


